Estas linhas tem como objetivo comparar o conto "Amor" de Clarice Lispector e a poesia "Cavador do Infinito" de Cruz e Souza. Os autores, nestes textos estão a procura de algo maior... Eles escreveram através de símbolos e a intenção é aproxima-los e entender essa busca partindo do ponto de vista que esta procura pode surgir de um momento de revelação. Serão comparados trechos das obras, procurando antes esclarecer pontos diferentes da vida dos autores e suas influências literárias.
O dia e ano de nascimento de Clarice Lispector é um mistério, mas acredita-se que ela tenha nascido no dia 10 de Dezembro de 1920, filha de imigrantes Ucranianos, chegou a Maceió com dois meses de idade, com seus pais e suas irmãs. Em 1924, a família mudou-se pára Recife. Quando ela tinha 8 anos sua mãe faleceu, três anos depois mudou-se para o Rio de Janeiro com seu pai e suas irmãs.
Em 1939 Clarice Lispector ingressou na Faculdade de Direito, formando-se em 1943. Trabalhou como redatora para a Agência Nacional e como jornalista no jornal "A Noite". Casou-se em 1943 com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem viveria muitos anos fora do Brasil. O casal teve dois filhos, Pedro e Paulo.
Seu primeiro romance foi publicado em 1944, "Perto do Coração Selvagem". No ano seguinte a escritora ganhou o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras. Dois anos depois publicou "O Lustre".
Separada de seu marido, radicou-se no Rio de Janeiro. Em 1960 publicou seu primeiro livro de contos, "Laços de Família", seguido de "A Legião Estrangeira" e de "A Paixão Segundo G. H.", considerado um marco na literatura brasileira.
Em 1977 publicou seu ultimo romance "A Hora da Estrela", que foi adaptado para o cinema, em 1985.
Clarice Lispector morreu de câncer, na véspera de seu aniversário de 57 anos.
Ela nunca explicou seu processo de criação, mas segue o estilo de Marcel Proust, James Joyce e Virginia Woolf, que utilizavam o método de fluxo de consciência (inventado por Joyce). Neste tipo de escrita muitas vezes fica difícil para o leitor a compreensão da narrativa por que se confunde a voz do narrador com a do personagem, também pode ser difícil entender os limites que dividem a imaginação da realidade apresentados no texto.
No texto "Amor", além do fluxo de consciência, existe a "epifania" termo que no sentido literário é um momento de revelação, geralmente causada por uma situação cotidiana que ilumina a vida do personagem.
Cruz e Souza nasceu em 24 de Novembro de 1861, na cidade de Desterro, hoje Florianópoles. Filho de escravos sofreu uma serie de perseguições raciais.
Em 1890 foi para o Rio de Janeiro, onde descobriu a poesia simbolista francesa de Boudelaire, Verlaine, Rimbaud e Mallarmé. Cruz e Souza escreveu livros de poesias como "Tropos" e "Fanfarras", mas suas obras poéticas de destaque foram: "Broqueis" (1893), "Farois" (1900) e "Ultimos Sonetos" (1905). Seus dois últimos livros foram publicados depois de sua morte, em 19 de Março de1898.
Quando vivo, ele conseguiu um emprego humilde na Estrada de Ferro Central. Em 1893 casou-se com Gravita Rosa Gonçalves, que também era negra. O casal teve quatro filhos e todos faleceram prematuramente, o que teve vida mais longa morreu aos 17 anos, Gravita sofria das faculdades mentais e passava longos períodos internada em hospitais psiquiátricos.
Cruz e Souza contraiu tuberculose e morreu aos 36 anos, discriminado por suas origens e miserável não tendo seu trabalho reconhecido em vida. Até hoje, em muitas escolas é dado pouca importância ao trabalho do simbolista, já que seus textos são utilizados em aulas de gramática para o ensino da aliteração, porém sua importância, história e obras muitas vezes nem são citadas.
O pensamento de Cruz e Souza tem a afinidade com o pessimismo de Schopenhauer (1788-1860), filosofo alemão do século XIX da corrente irracionalista, tendo como principal característica " a natureza, como universal aspiração, ou vontade de querer, manifestada na poesia como uma dor universal". A poesia " Cavador do Infinito" pode ser considerada pessimista já que o cavador sempre continua em busca das eternas ânsias.
"Amor" e "Cavador do Infinito"
Em "Amor", Ana tem uma vida normal à qual se acostumou em que se sentia segura:
" No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera (...). O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida (...). O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora do seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável (...). Assim ela o quisera e escolhera".
Neste trecho podemos perceber que Ana tem necessidade de se sentir segura e a acomodação que o casamento lhe dá é suficiente para não pensar em sua juventude, porque ela escolheu essa vida controlada olhando apenas seu mundo atual e "renegando" o passado. Isso fica mais claro quando ela tem de sair ou se distrair nos momentos de ósseo quando ela pode refletir sobre a vida. O medo transcrito neste parágrafo mostra que ela sabe, mesmo que inconsciente, da realidade, mas é mais cómodo não enxergar e continuar vivendo em seu mundo protegida pela família e preocupações domésticas.
" Sua preocupação reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela (...). Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto - ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidava do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na"Podemos comparar este trecho com a poesia de Cruz e Souza, em que mesmo tendo sonhos e querendo descobrir novas sensações, abafa as queixas e continua a fingir que não há nada errado, os sonhos já estão em sua lâmpada, porém tem de ignorar esse desejo."Com a lâmpada do Sonho desce aflito
E sobe aos mundos mais imponderáveis,
Vai abafando as queixas implacáveis,
Da alma o profundo e soluçado grito"
No conto, Ana em um dia comum, voltando do mercado vê um cego mascando chicletes, isto é o suficiente para lhe causar uma "epifania" e mesmo não querendo acaba se deparando com a realidade e começa a refletir sobre sua vida, ela sente nojo do que é e das atitudes que tem. Isso causa uma crise de sentimentos que ela já não sabe como controlar.
Podemos comprar esta passagem à segunda estrofe do Poema "Cavador do Infinito" na qual as ânsias e desejos não podem ser alcançados e os sentimentos não podem ser explicados.
"Ânsias, Desejos, tudo a fogo, escrito
Sente, em redor, nos astros inefáveis.
Cava nas fundas eras insondáveis
O cavador do trágico Infinito"
Em "Amor", Ana vê o mundo de forma diferente a partir do momento em que vê o cego, muda a forma de enxergar desde as plantas no jardim botânico até a teia de aranha no canto do fogão.
Ela sente uma espécie de vergonha de suas atitudes, pois mesmo cego ele vive normalmente, anda pelas ruas, convive com as diferenças. Ela se sente inferior por fugir da vida e de se esconder atrás de uma família normal sem sonhos maiores, percebendo que o mundo a sua volta é bem maior, se sente egoísta e indiferente pela maneira como vive.
"O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisa, sofrendo espantada. Um cego mascando chicletes mergulhara o mundo em escura sofreguidão"
Ana percebia tudo mais claro agora e começou a pensar realmente em mudar seu modo de viver, pensando até em ajudar o próximo. Isso se encaixa na terceira estrofe do poema que diz que quanto mais procuramos, mais queremos procurar, pois o processo de cavar é interminável e se transforma em lava se perdendo dentro de si mesmo:
"E quanto mais pelo Infinito cava
mais o Infinito se transforma em lava
E o cavador se perde nas distâncias..."
Com essas "novas" ânsia surgindo, Ana decide aproveitar cada instante que vive. Sua maior preocupação é que aquele momento passe e esqueça a pequena flama do dia. O despertar daquele momento a fez questionar vários aspectos de sua vida que ela não via ou não encontrava, ela começou a ver o que não via e a se questionar sobre o que sentia. No fim do dia as emoções se tornam menos densas e Ana começa a não pensar no que aconteceu naquela tarde.
"Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebenta, e na casa toda havia um tom humorístico, triste (...). Acabara-se a vertigem de bondade".
No Cavador do Infinito, podemos entender que o ser humano carrega consigo sua lâmpada dos sonhos, e que esta sempre em busca de respostas para o EU interior, as eternas ânsias continuaram sendo procuradas no infinito das angústias sempre a procura de respostas e uma direção correta.Nos contos de Clarice Lispector, os personagem sempre procuram por alguma coisa que não é dita com clareza no texto, talvez porque a intenção seja que cada leitor interprete da forma que lhe convém. A autora descreve o ser humano sempre a procura de alguma resposta, do amor incondicional, sem perceber que este amor é a liberdade dos sentimentos, o desprendimento do meu, o fim do egoísmo e a percepção do outro.
Nas poesias de Cruz e Souza, há toda uma sonoridade, representando muitas vezes um grito, uma tristeza, uma denuncia. Este, que foi objeto de estudo especificamente, trabalha com o elemento chave da busca pelo melhor, pelo infinito e mostra que o ser humano esta sempre em busca da compreensão dos seus anseios.
Comparando os dois textos pode-se dizer que "Amor" seria uma espécie de releitura do "Cavador do Infinito", embora cada texto tenha sua particularidade e de certa forma a poesia acaba sendo mais pessimista que o conto, até mesmo pelas influência filosóficas do autor... Podemos concluir que embora separados pelo tempo e formas literárias ambos os autores trabalham o mesmo tema cavando o abismo das eternas ânsias!
Por: Cris Fontes